quinta-feira, 8 de julho de 2010
Conjugação Da Ausente
Vinicius de Moraes
Foram precisos mais dez anos e oito quilos
Muitas cãs e um princípio de abdômen
(Sem falar na Segunda Grande Guerra,
na descoberta da penicilina e na desagregação do átomo)
Foram precisos dois filhos e sete casas
(Em lugares como São Paulo, Londres, Cascais, lpanema e Hollywood)
Foram precisos três livros de poesia e uma operação de apendicite
Algumas prevaricações e um exequatur
Fora preciso a aquisição de uma consciência política
E de incontáveis garrafas;
fora preciso um desastre de avião
Foram precisas separações, tantas separações
Uma separação...
Tua graça caminha pela casa
Moves-te blindada em abstrações, como um T. Trazes
A cabeça enterrada nos ombros qual escura
Rosa sem haste. És tão profundamente
Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
Porque te participam. Fora, o jardim
Modesto como tu, murcha em antúrios
A tua ausência. As folhas te outonam, a grama te
Quer. És vegetal, amiga...Amiga! direi baixo o teu nome
Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
Que te emoldura, fatigada, e ao
Corredor que pára
Para te andar, adunca, inutilmente
Rápida. Vazia a casa
Raios, no entanto, desse olhar sobejo
Oblíquos cristalizam tua ausência.
Vejo-te em cada prisma, refletindo
Diagonalmente a múltipla esperança
E te amo, te venero, te idolatro
Numa perplexidade de criança.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Meu primeiro amigo - Para Joaquim Pinheiro Bezerra de Meneses - Socorro Moreira
Hoje é o dia do amigo.Tentei contar nos dedos , quantos amigos eu tenho, e quantos me fazem feliz, e descobri que são muitos, na qualidade.
Minha amiga primeira (Valda, minha mãe);
Meu pai (Moreirinha) - o maior de todos.
Mas tem o fura-bôlo, o cata-piolho ...
Amigos de infância, de escola, de Banco do Brasil, de blogs, amigos do virtual ,familiares , amigos que deixei nas cidades onde morei, amigos que me aconteceram agora .
Mais importante do que todos os meus amores , todas as minhas paixões - são os meus amigos de hoje , e de outrora.
Escolhi Joaquim para representar esse universo de afetos.
Foi no meu primeiro dia de aula. Eu tinha menos de 4 anos de idade , e estava naquela sala do Externato 5 de Julho , fardada , de lancheira e cartilha debaixo do braço , quando nos conhecemos.
Depois nos transferimos para o Instituto S.Vicente Férrer , aonde concluimos o primário. De lá prestamos exame de admissão ao Ginásio , no Colégio S.João Bôsco - 13 anos de coleguismo , de vidas paralelas e tão unidas !
Não conversávamos , mas sabíamos tudo um do outro. Tudo !
Foi para Joaquim que eu escrevi meu primeiro bilhete( aos 5 anos de idade).
Brincando ele diz :
"Você sabia escrever, mas eu não sabia ler..."
Quarenta anos depois, a gente se reencontrou. Lembramos com detalhes nossa vida escolar : professores, colegas, festinhas, passeios, interesses, encantos ...
De memória infinitamente mais prodigiosa do que a minha , montamos em muitas conversas o quebra-cabeça da nossas vidas.
E quando lhe pergunto : Hei, por que nunca dançamos, nunca fomos camaradas, nunca trocamos confidências, nunca fomos ao cinema ...??? Ele respode : "Você era muito séria !"
Joaquim Pinheiro representa minha infância , adolescência , minha maturidade e jovialidade presente.
Apesar do distanciamento por tantos anos , descobrimos e reafirmanmos a nossa irmandade , que eu digo que é eterna !
Hoje eu sei que ele não é apenas filho de Dona Almina e Seu César; irmão de Maria Amélia, Zé Almino , Maria Edite; sobrinho de Dona Anilda, Dona Alda, e Miguel Arraes ; primo de Dedé , de Fernando, Maria José ... Ele é o esposo de Raquel e pai de Raul e Renata ; avô de Miguel , que está pra chegar ... É o meu amigo novo e antigo. Meu grande referencial de amizade !
P.S
Eu lembro do dia em que tiramos essa foto. Fazíamos o terceiro ano primário , no Instituto S.Vicente Férrer. Éramos colegas de Valda Arraes, Magali de Figueirêdo, , Francíria Alencar, Franceury Teles, Tarcisinho, Thiago Araripe, Mário Frota , Denise, Aldenir Silvestre , e outros.
Mais de um século de amizade . Muito mais de emoções puras e belas .
Para Joaquim o meu abraço de respeito e carinho, extensivo a todos os meus amigos de todas a eras !
Amigos Novos e Antigos - João Bôsco e Aldir Blanc

Amigos Novos e Antigos
Composição: Aldir Blanc - João Bosco
Composição: Aldir Blanc - João Bosco
As frases e as manhãs
são espontâneas
Levantam do escuro
e ninguém pode evitar
Eu tento apenas
mostrar cantando
O lado oculto do meu coração
Eu tenho às vezes
no olhar tardes de chuva
E sons percorrendo
alamedas na memória
Eu tento apenas
mostrar cantando
O que há nos lagos
do meu coração
"Quando para mucho
me amore de felice corazon
Mundo paparazzi me amore
chika ferdy para sol
Questo obrigado tanta mucho
que can eat it carrosel"
Alguém entrou nomeu peito agora
Mas só depois
vou saber quem é.
domingo, 19 de julho de 2009
Foi tão lindo , que ainda é lindo ! - Socorro Moreira - Fotos Claude Bloc
Teatro Municipal Salviano Saraiva
Crato - Ceará
Pra quem deixou de vir à Expo/2009 - Socorro Moreira - Foto de Orlando Rafael Dias

Foram tantos nove meses
Foram tantos nove anos
E hoje é hoje.
O tempo passou,
e nem parece que passou.
.
Estávamos lá ,
caminhando, rindo,
trocando impressões :
mangando , e "madrigando ",
Comendo tapioca com amendoim,
acarajé no taboleiro da baiana,
ouvindo Hugo no acordeon,
Leninha interpretando Correinha
.
Estávamos lá
encontrando a cada passo
um rosto quase reconhecível,
tanto quanto o meu,
que guardou o olhar e o sorriso
.
Estávamos lá,
na poeira dos passantes
no embalo do "country" cratense
Pipoca aqui e ali
Rolete lá e acolá
e a gente ...!
Le Lac de Come - José do Vale Feitosa

Caindo suavemente, hesitante, pelas pregas do tempo,
Que no rosto fincou leitos do passado concluso,
Quando não me dava conta da finitude presente,
A cada momento que colhi em galhos da vida,
Guardando-o no cestos cá dentro de mim,
Como se não fossem amadurecer jamais,
Rachando a casca, minando sumo,
Soltando sementes pelo canal,
Rolando pelo ângulo,
Descendo a face,
Pelo abismo,
Caindo,
Sobre,
Mim.
Rio de Janeiro, 09/10/93
José do Vale Pinheiro Feitosa
Por Dentro - José do Vale Pinheiro Feitosa

Ocupa toda pessoa e não está em lugar nenhum.
É dor que vara dum lado a outro do peito e não aparece buraco algum.
Num tem meizinha, reza de rezadeira, colher de açucareiro, é dor que queima feito mel fervente no tacho.
Dor de esquina, é como inteiro apartado, é um pedaço que falta onde nunca se deu conta.
É dor cheia, ocupa todos os limites do continente.Mas, também é dor de vazio, as águas de um riacho seco.
Dor de espírito buliçoso, nenhum canto é suficiente para lá se encontrar.
Parece mesmo é raspa de juá, faz espuma, clareia os dentes, para depois mascar fumo.
Dor de arribaçã, voando para pousar bem em frente da espera do caçador.
Dor de trânsito engarrafado: pára onde era para andar, anda onde era para dobrar.
E com tudo isso dito, continua esta dor sem explicação.
Quando a vi pela primeira vez, senti uma dor cá dentro de mim.
Apalpei-me e a dor não estava no corpo. Fixei meus olhos em busca daqueles e a dor era ela.
Uma dor de urgência.
Que o fluxo do tempo não se desse sem que me ouvisse sobre a agonia que a sua existência em mim causava.
Era linda? Mais ainda. Era luz? Cegava sem a perda da visão dela.
E o chão parecia uma onda gigante, na Praça da Sé, girando com todos os sanfoneiros e zambumbeiros dos sertões, num samba zombeteiro da emergência sem socorro.
E uma palavra poderia aplacar aquela dor sem solução, mas tudo em volta se movia como roubando toda a energia do ambiente.
Especialmente daquele estado acelerado, quando a dor é uma sentença da plenitude do aqui e agora.
E das minhas cordas vocais grunhidos saíram, grunhidos roucos, abafados, fugidios, em cascata, fazendo um turbilhonamento nas palavras.
Ela franziu o cenho em primeira mão.
Minha agonia acelerou ainda mais as sílabas, que saltavam em torno dela como a metralha de projéteis de plumas de algodão, com caroço e tudo.
Tenho a impressão que terminaria aquele ato transformado num saco vazio se não percebesse a tempo uma leve vírgula de botão de rosa pelo canto direito de sua boca.
Acho que a breve história daquele átimo de tempo me salvou quando já estava a ponto de me levar por aquela dor.
Depois o outro canto da boca se fez um roseiral. Os olhos me receberam com uma aceitação que jamais imaginei merecer.
Nunca imaginei que fosse possível ver as abas do nariz se afastarem e abrir um riso franco de satisfação.
Estava como ganhador da loteria numa chance em milhões. E daquela riqueza toda o mundo me fez milionário.
Deu-me muito mais que jamais ousei lutar. E sigo assim....com esta dor que não sei o quê é.
Uma dor de urgência. Que nunca se acaba.Ainda mais se a causa não está.
Por José do Vale Pinheiro Feitosa
sábado, 18 de julho de 2009
Tempero da Lua - Por: José do Vale Pinheio Feitosa

Ofereço esta postagem aos membros do Madrigal Intercolegial de volta ao palco como se dele jamais tivessem ausentes.
Tempero da lua,
Fluorescência que revela a mãe d´água.
Destaca o carrapicho na beira da estrada,
Como a solidão condimentada das madrugadas,
Nas trilhas de algum beco escuro do povo esquecido,
Ou nas veredas que ressoam os cascos da montaria.
O tempero da lua é secretado,
Nos limites das curvas do teu corpo nu,
Como partes superiores das dobras do lençol
Pérolas luminescentes da saliva de tantos beijos,
Gotículas de estrelas aos suspiros copulares.
Tem tempero da lua nos mares,
No silêncio da jangada em rumo do fogo guia,
Em cada gume afiado das palhas do coqueiro,
Na corrida de prata das nuvens passageiras,
A elevação iluminada das dunas sobre o mar
Tempero da lua,
Em porções homeopáticas sobre as cidades,
Num pequeno ângulo entre duas torres,
Se derramando inteiro sobre os parques,
E se deitando comigo e a janela para oeste.
Tempero da lua,
Antítese das marcas e vincas da vida,
Sobretudo depositando incertezas,
Nesta superfície tanto rugosa quanto lisa,
Entre os perfumes que as flores disseminam.
Tempero da lua,
Que o mundo me ofertou,
Logo que o primeiro ácido do dia terminou,
Suavizou o clima do meu olhar,
A vida como algo dual em desejo de outro.
Por José do Vale Feitosa
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Carta a mim mesmo - Por José do Vale Pinheiro Feitosa

Como respirar feito um continente. Lá no palco do teatro municipal do Crato e aqui ao pé do Corcovado. Quantas apnéias nesta tamanha rede de canais de ar e seiva do mundo não acontecem? Tantas que me fazem fraco de presença. Ausente como espectro, feito uma descida na mesa espírita. Mas não existem desculpas se as asas velozes da aeronave voam. E cá não estivestes.
Mas se estivestes apenas em subjetividade foi de corpos que o Madrigal cantou.
O Crato nem lembra, mas Divani Cabral não foi uma diletante, mas dedicada maestrina; seus tempos de Pró-Arte nas temporadas de Teresópolis. Divani foi tudo isso , pois tinha técnica, emoção e a cidade para amar no geral e na juventude.
E Bernardete Cabral, pequenina, miudinha, quase nada. Eu que o diga quando pegou pela mão aquele moleque selvagem da batateira e lhe deu a oportunidade de suportar o presídio da carteira escolar junto à repetição do alfabeto.
E este povo que ali madrigou, como só pode ser o mundo, um todo sem partilhas de minutos. Um todo em que nós não estamos, sobretudo existimos.
A todos vocês um grande aceno entre aí e aqui.
José do Vale Feitosa
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Hoje uma réstia , amanhã toda a iluminação - Por: José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando o sol chega à parte da elipse que diz julho no hemisfério sul, Arquimedes faz sentido. Devido à bela intrusão metamórfica do Corcovado junto à qual plantei minha janela. Quando as 16 horas são contadas no relógio, o sol se encontra num pequeno ângulo entre a pedra do Cristo Redentor e o Sumaré. Ainda feroz de luz, mas uma réstia prestes a ser apagada. Poucos minutos e se pôs. Não queimará mais o sinteco da sala. Deu por findo a jornada do dia.
E isso poderia ser eterno. Mas não: já sei que não é em pragmatismo. É no tempo poético, posto que não busques a permanência se tens a corrida das Valquírias. Eles se vão, o tempo passa, o momento cessa. Mas poetas, ele está bem aqui, como suor na tua pele, feito os líquidos em que ti circulam, como os gases que se trocam. O eterno não seria mesmo aqueles quadros por minuto, mas o fotograma do acontecido. Este é eterno, pode ser desconhecido, mas no cômputo geral do movimento o foi e deste modo é.
E Arquimedes? De repente em menos de uma semana o sol dar um salto daquele ângulo fugaz e se torna mais permanente. Estica o entardecer. Ainda reduz o dia, mas o ponto que alavancou, não a terra mas o sol, foi utilizado pela Elipse. Esta geometria da ordem pitagórica tão reduzida a uma folha de papel na escola e tão imensa em todos os significados da vida cá nesta crosta de um astro em translação.
E quando escrevi Arquimedes meu veio calipso. Ou melhor, Kalypso, não a banda, nem a ninfa de Odisseu. Mas uma médica do sistema de saúde inglês, nos dando o sentido da racionalidade em gestão de saúde. Não a racionalidade inerente a um processo, mas aquela que se volta à redistribuição de qualidade de vida, que aplica para garantir a todos o mesmo acesso à saúde. Isso é muito, especialmente nesta ânsia imoral por corte de gastos.
Postado por José do Vale Pinheiro Feitosa no Cariricult
E isso poderia ser eterno. Mas não: já sei que não é em pragmatismo. É no tempo poético, posto que não busques a permanência se tens a corrida das Valquírias. Eles se vão, o tempo passa, o momento cessa. Mas poetas, ele está bem aqui, como suor na tua pele, feito os líquidos em que ti circulam, como os gases que se trocam. O eterno não seria mesmo aqueles quadros por minuto, mas o fotograma do acontecido. Este é eterno, pode ser desconhecido, mas no cômputo geral do movimento o foi e deste modo é.
E Arquimedes? De repente em menos de uma semana o sol dar um salto daquele ângulo fugaz e se torna mais permanente. Estica o entardecer. Ainda reduz o dia, mas o ponto que alavancou, não a terra mas o sol, foi utilizado pela Elipse. Esta geometria da ordem pitagórica tão reduzida a uma folha de papel na escola e tão imensa em todos os significados da vida cá nesta crosta de um astro em translação.
E quando escrevi Arquimedes meu veio calipso. Ou melhor, Kalypso, não a banda, nem a ninfa de Odisseu. Mas uma médica do sistema de saúde inglês, nos dando o sentido da racionalidade em gestão de saúde. Não a racionalidade inerente a um processo, mas aquela que se volta à redistribuição de qualidade de vida, que aplica para garantir a todos o mesmo acesso à saúde. Isso é muito, especialmente nesta ânsia imoral por corte de gastos.
Postado por José do Vale Pinheiro Feitosa no Cariricult
Noite festiva - Colheita de sonhos- Por: Socorro Moreira - Fotos by Claude Bloc

( A maestrina Bernadete Cabral , Rosineide Esmeraldo , Stela Siebra, Maria Luiza e Nilo Sérgio)
Como extensão dos ensaios , e aproveitando o entusiasmo do reencontro , O Madrigal Intercolegial reuniu-se na casa de Zélia Moreira para comemorar o aniversário de Carlindo Costa.
Debaixo do teto, e aos pés do coração da anfitriã , o grupo entoou risos e risos !
A gente sabia que o tempo era passado , e que o presente era vivo !
E era o gosto de reviver , e era o juízo de poder fazê-lo .
- De Chico Buarque a Jackson do Pandeiro , entremeados de valsas e canções, aprendidas na estação da década mais feliz das nossas vidas.
Peixoto era rítmo e coração , como um dos ases da nossa emoção.
Não eram pares, nem trios, nem solos. Era a companhia !
Da infância ao limite de um tempo feliz : Hoje, sempre !
a confiança no entendimento
o novo em todos , no intacto antigo.
Dona Bernadete - resistência entusiástica na festa e na reza.
Hugo , "o peralta Zezinho", de Mons. Montenegro - contando as suas diabruras e, reafirmando no acordeon , a sua genialidade artística.Nos anos 60, Arte e Educação já eram casadas no ensino cratense.
Divani , a sacerdotisa que celebrava as bodas :
Jograis, corais, espetáculos teatrais . Música, Dança , Cinema , como a "Fantasia" de Walt Disney.
Uma noite por ano , num país diferente ( Japão, Espanha, Portugal).
Transposição de todas as artes para as nossas vidas.
Aliança subliminar intercolegial.
Geração dourada , hoje florida !
- Aquarius !!!
Fotos : by Claude Bloc
Texto : Socorro Moreira
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Gosto musical duvidoso - Por: José do Vale Feitosa

Meu gosto musical é duvidoso. Dispersivo, multifacetado, local e mundial. Como dizem os cariocas: o meu e o da torcida do Flamengo. E neste caleidoscópio de consumo musical não existe um ideal estético. Todos os cânones e normas são aceitos.
A música mais que outras formas de arte aceitou a diversidade, o local e o global; o formal e o folclórico nas formas de terreiro e nas formas de salão.
O Theatro Municipal do Rio de Janeiro completou cem anos ontem. Pois bem, nos séculos XIX e XX uma arte (?) popular e uma arte de elite são responsáveis pelas mais majestosas edificações. Principalmente no ocidente endinheirado: continuam fabulosas e evidentes, apesar dos zigurates da modernidade, as óperas em todas as grandes cidades.
No popular os estádios até nas pequenas cidades.Quem chegou à vida adulta ali no começo dos anos setenta, vindo do interior, sabe que a falta de um ideal estético é conseqüência do cinema, do rádio, televisão e da indústria fonográfica.
Se fosse depender apenas do contato ao vivo com a música, o folclórico e religioso prevaleceriam, com as bandinhas, o mineiro-pau, reisados, dança do coco, os cânticos de renovação, das procissões, os desafios de viola e assim por diante.
Os poucos músicos locais os encontraria na periferia boêmia. A banda de música e claro alguns corais. Mas sem aqueles meios (cinema, rádio...) a música seria outra.
Outro dia me dava conta da quantidade de fragmentos de peças clássicas que conhecia desde a infância. Não foi audiência ao vivo. Nem o interior cearense e nem a capital tinha muito a oferecer.
Na capital tudo havia no epicentro do Conservatório Alberto Nepomuceno e no máximo em raras manifestações no Zé de Alencar. Então, as ouvi especialmente nas trilhas sonoras do cinema, no rádio e em eventuais discos.
A ópera era e continua até hoje objeto de intenso estranhamento em parcela importante da população e, especialmente, da juventude.
O caleidoscópio musical que me faz de gosto duvidoso se fez simultâneo com o sertanejo já de poesia acadêmica (Luiz Gonzaga, HumbertoTeixeira e Zé Dantas); o samba com letras da classe média; o jazz com suas bandas, solistas e vocalistas; o rasgado ritmo da juventude; o bolero e com todo o seu lero romântico; a canção européia e tome japonês por emergência, a África por exuberância; os Árabes com seus cânticos semíticos; até os ritmos do Xingu.
E o mais duvidoso de tudo. Nasci, fiquei até vir embora, no sítio Batateira em primeiro momento e depois um bairro que chegou ao que é.
Durante os meus dois últimos anos era o locutor e o discotecário, nas horas vagas do ensino, da Amplificadora a Voz do Povo.
E que voz! Aquele canto de abandono, de traição, de vingança, de uma imensa dor de corno, aquilo que era ao mesmo tempo o chão pantanoso da “estética oficial” e a fina flor da dor do povo que não sai no jornal.
Que me perdoem o vício pelo indefensável. Que perdoem o hábito de manter a discussão. Não existe uma palavra final para nós. Apenas o mote solitário, neste ambiente plural: a arte é simultaneamente doméstica e das ruas; do particular e do coletivo; sentimental e racional; lamentosa e glorificadora; enfim, a arte é a expressão do tempo atual.
A expressão do tempo atual é a simultaneidade.Muitos acham meu gosto musical duvidoso. Até tenho dúvidas com esta falta de ideal. O máximo que posso é aprender com este alguém e adicionar mais um gosto ao meu portfólio (não é assim nesta tecnicidade moderna?)
Emoção - Socoro Moreira

Chorei todas.
Por mim e por todos.
Cada cara era um livro de história.
E eu passando a página, e
borrando de tinta , o papel da memória.
Não podemos ser oniporesentes ,
a não ser em pensamentos
Não podemos mudar o curso da história,
mas podemos ousar um complemento
Não chorei a primeira,nem a última lágrima ...
Chorei um regato,apenas um lago
Quem manda acumular tantos fados ?
Quem Sabe um Dia - Mário Quintana

Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!
Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!
Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!
Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!
Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!
Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!
Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois
Mário Quintana
Amor - pois que é a palavra essencial - Carlos Drummond de Andrade

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
Amor Natural - Carlos Drummond de Andrade

Sugar e ser sugado pelo amor
Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.
A língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
A castidade com que abria as coxas
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
Mimosa boca errante
Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Um pingo d'água no oceano - Por : José do Vale Pinheiro Feitosa

Rio de Janeiro, 30/10/1988
É uma imagem poética muito antiga e usada.
O insignificante querendo ser individual.
Ser algo diante da vasta matéria,
e energia do espaço-tempo universal.
Mas eu vi, foi o primeiro a cair,
Ploft, e sua onda se espalhou na água,
tenho plena consciência,
aquele foi "um" pingo.
Que caiu em cheio na memória,
durou uma pequena fração do meu tempo,
mas teve tempo suficiente,
para ter o mesmo conhecimento,
das nebulosas cósmicas.
A Questão da Obra de Arte - Por : José do Vale Feitosa

Há um debate sobre qualidade artística, talento (uma espécie de sinal de Deus), para que serve o que se escreve e publica? Não é sem razão que se faz desse modo. Muitos manifestaram tais preocupações consigo mesmo.
Até recordo de uma texto da Isabel Lustosa em comemoração à Padaria Espiritual, quando ela se referia a pequenos burgueses, nas franjas do comércio e da Fênix Caixeiral. Aquele seres menores do universo hierárquico brasileiro com suas pretensões literárias. De qualquer modo, apesar da régua baixa nesta parte do texto da Isabel, desta mesma Padaria surgiram nomes nacionais (não muitos, nunca são muitos na seletividade publicitária).
Na minha geração dos cinco anos que vivi em Fortaleza esta rebeldia cearense em face das Academias, de Letras, apresentou a Padaria como uma alça em que no universo do sou ou não sou, carregou muitos talentos que se desenvolvem no processo.
Afinal o debate não terá uma última palavra e vai muito além, misturando estilos e sentimentos. Aproveito para trazer este texto do blog do Saramago a respeito de um escritor português, em termos do seu estilo, seu anacronismo estético e a memória de todos com a volúpia da modernidade.
José SaramagoA obra romanesca de Aquilino Ribeiro foi o primeiro e talvez o único olhar sem ilusões lançado sobre o mundo rural português, na sua parcela beiroa. Sem ilusões, porém com paixão, se por paixão quisermos entender, como no caso de Aquilino sucedeu, não a exibição sem recato de um enternecimento, não a suave lágrima facilmente enxugável, não as simples complacências do sentir, mas uma certa emoção áspera que preferiu ocultar-se por trás da brusquidão do gesto e da voz.
Aquilino não teve continuadores, ainda que não poucos se tenham declarado ou proposto como seus discípulos. Creio que não passou de um equívoco bem intencionado essa pretendida relação discipular, Aquilino é um enorme barroco, solitário e enorme, que irrompeu do chão no meio da álea principal da nossa florida e não raro deliquescente literatura da primeira metade do século. Nisso não foi o único desmancha-prazeres, mas, artisticamente falando, e também pelas virtudes e defeitos da sua própria pessoa, terá sido o mais coerente e perseverante.
Não o souberam geralmente compreender os neo-realistas, aturdidos pela exuberância verbal de algum modo arcaizante do Mestre, desorientados pelo comportamento “instintivo” de muitas das suas personagens, tão competentes no bem como no mal, e mais competentes ainda quando se tratava de trocar os sentidos do mal e do bem, numa espécie de jogo conjuntamente jovial e assustador, mas, sobretudo, descaradamente humano.
Talvez a obra de Aquilino tenha sido, na história da língua portuguesa, um ponto extremo, um ápice, porventura suspenso, porventura interrompido no seu impulso profundo, mas expectante de novas leituras que voltem a pô-lo em movimento.
Surgirão essas leituras novas? Mais exactamente, surgirão os leitores para esse ler novo? Sobreviverá Aquilino, sobreviveremos os que hoje escrevemos à perda da memória, não só colectiva, mas individual, dos portugueses, de cada português, a essa insidiosa e no fundo pacóvia bebedeira de modernice que anda a confundir-nos o sistema circulatório das ideias e a intoxicar de novos enganos os miolos da Lusitânia?
O tempo, que tudo sabe, o dirá. Não percebemos que, desleixando a nossa memória própria, esquecendo, por renúncia ou preguiça mental, aquilo que fomos, o vácuo por esse modo gerado será (já o está a ser) ocupado por memórias alheias que passaremos a considerar nossas e que acabaremos por tornar únicas, assim nos convertendo em cúmplices, ao mesmo tempo que vítimas, de uma colonização histórica e cultural sem retorno.
Dir-se-á que os mundos real e ficcional de Aquilino morreram. Talvez seja assim, mas esses mundos foram nossos, e essa deveria ser a melhor razão para que continuassem a sê-lo.
Ao menos pela leitura.
Postado por José do Vale Pinheiro Feitosa no Cariricult.
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